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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Estava eu... epitafiando

Morte aos pedaços

meio sorriso,
poucas lágrimas,
muita dor
- Uma facada no peito dói menos!
Não posso mais contar os números,
fraciono: 1/4
o infinito atrapalha.
Cada dia a mais
um a menos
não vejo o sol,
nem nada
no rádio alguém diz:

"volta pro esgoto baby,
e vê se alguém te quer"

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Estava eu... fazendo as malas

“Chega!
Acabou!
Não quero mais saber dessa história.
Longe daqui começarei outra vida, vou conhecer novas pessoas.
Talvez até mude de nome: Patrícia, Aline, Samanta, Renata. Renata não, cansei de nomes com a letra "R". Colocar mais um "R" na minha vida é estar assinando meu atestado de óbito.”


Pegou poucas peças de roupas, estava disposta a mudar até o estilo de se vestir, não usaria All Star, não beberia uísque com Coca Cola e jurou aprender a tomar decisões sem ficar esperando pelas atitudes alheias.
No meio da bagunça da sua imensa cama, que seria trocada por um colchão de solteiro, achou uma navalha bem afiada, não exitou e tascou uma navalhada no cabelo, quinze minutos depois estava quase irreconhecível. Mas o sorriso ainda poderia ser reconhecido de longe – não importava a situação, ela sempre ria, e ria muito, principalmente quando estava nervosa.
Pegou um de seus maiores óculos para esconder os olhos, ainda inchados da noite passada, acendeu seu cigarro e pegou a estrada.

No rádio o último rock chorava:
“I've still got your face
Painted on my heart
Scrawled upon my soul
Etched upon my memory, baby”

Ao pegar o celular para jogá-lo janela afora, sentiu ele tremer na sua mão trêmula e fria.
Era ele:

“Tem certeza que tu vai ir embora?”

“Agora eu tenho”

Um telefone voou!
Ela tinha cansado de só ouvir perguntas. Ao ver a chamada já estava disposta a trocar de pista e correr para os braços dele. Mas ao invés de falar para ela voltar, fez a mesma pergunta de sempre.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Estava eu... ouvindo The Doors...

Ela dirigia a 130 Km/h pela longa estrada sinuosa. As árvores, negras como a noite, debruçavam-se sobre ela, fechando mais e mais seu horizonte já parco. À cada curva a revelação de um curto futuro e da próxima curva. Descia assim a montanha, com as rodas sobre a pele negra da imensa serpente, vagueando de acostamento a acostamento, deixando os rastros, marcas dos seus pneus sobre as escamas. Suas mãos molhadas pelo suor tornavam escorregadias as suas chances de guiar o seu destino, que à essa altura já não fazia mais tanta diferença. O ódio era o único sentimento que seu coração respirava agora, era portanto a esperança um mero capricho que ela não mais alimentava.

No rádio Jim Morrison exprime:
"Ride the snake...he's old, and his skin is cold "

Aquela imagem na sua cabeça, uma tormenta de cólera. Na sua cama, em seu quarto, os corpos nus de dois malditos amantes suavam é riam às suas custas. Reconheceu a blusa da amiga no chão, que ela mesma havia dado de presente no natal. Ele nem se dera o trabalho de tirar a aliança do dedo antes de por as mãos sujas sobre a pele dela. Era como uma brincadeira de mal gosto, como um horrível pesadelo de que não se acorda. Sua vontade era de mata-los, de feri-los e de rir sobre seu sangue. Ela era agora a fúria contida de mais de 30 anos.

Quase alcançando o final da serpente, próxima à auto-estrada, o “guard-rail” não suportou o peso do carro somado à imensa inércia contida em sua velocidade. O carro, ela e todo o seu ódio foram lançados por entre as árvores, intercalando entre céu e terra por 7 vezes, pararam juntos e comprimidos no meio de 2 árvores.

"This is the end... My only friend, the end"

Dois meses depois, ela é capaz de então abrir os olhos e ver que o mundo ainda estava lá, negando o seu pedido de desistência. Ela sorri e lembra que descarregou a pistola da cômoda nos dois, metade em cada um, intercalando cada bala e pedido de socorro. Dá uma gargalhada e desliga sozinha os aparelhos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Estava eu... e o McCartney

Há mensagens recebidas em sua caixa de entrada:
Re: oi
Desculpe-me, mas não estou mais interessado neste assunto. Passe bem!


Esse era o maior de todos os medos dela.
Nunca havia escrito uma carta daquelas antes, ou melhor,
nunca teve coragem de mandar para ninguém.
Até porque os outros romances foram platônicos demais.
Jamais quis se envolver com alguém,
não tinha tempo para pensar nessas coisas.
A mais insegura e tímida do círculo de amizades disfarçava muito bem,
mas fazia isso de uma forma cruel com ela mesma:
intimidava as pessoas, principalmente os que despertavam algo a mais nela.
Escreveu uma carta para o único ser que conseguia fazer ela perder o sono.
Ela sabia que era tarde demais,
tudo anunciava:
sua taça de vinho estava acabando e
e o disco do Paul Mccartney havia pulado uma faixa:
Band on the Run
Tomou de uma só vez, com os dois últimos goles de vinho,
duas caixas de Lexotan e deitou-se ao som de Blackbird
Teve medo de uma resposta